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Doutora, o que acha das canetas emagrecedoras?

11 de set.
5 min de leitura


“Mounjaro? Wegovy? Saxenda? Doutora, o que acha das canetas emagrecedoras?”


É uma das perguntas que mais se ouvem atualmente nas consultas de nutrição.


As chamadas “canetas emagrecedoras” vieram revolucionar o tratamento do excesso de peso e da obesidade, mas continuam a existir muitas dúvidas sobre como funcionam, quem pode utilizá-las, os seus efeitos secundários e o papel da alimentação durante o tratamento.


Vamos simplificar.



1. O que são as “canetas emagrecedoras”?

São medicamentos injetáveis que atuam sobre hormonas envolvidas na fome, saciedade e controlo da glicemia.


Entre os mais conhecidos encontram-se:

  • Semaglutido – Wegovy;

  • Tirzepatido – Mounjaro;

  • Liraglutido – Saxenda.


O Mounjaro atua sobre duas hormonas, GIP e GLP-1, enquanto o semaglutido e o liraglutido atuam sobre o GLP-1.


Na prática, estes medicamentos ajudam a:

  • reduzir o apetite;

  • aumentar a saciedade;

  • diminuir a quantidade de alimentos ingeridos;

  • melhorar o controlo da glicemia;

  • promover perda de peso.


São medicamentos sujeitos a prescrição médica e devem ser utilizados com acompanhamento clínico. Em Portugal, podem ser prescritos por médicos, nomeadamente de Medicina Geral e Familiar, Medicina Interna ou Endocrinologia, dependendo da situação clínica.


2. São realmente eficazes?

Sim.

Os estudos demonstram perdas de peso significativas com semaglutido e tirzepatido em pessoas com obesidade ou excesso de peso que cumprem os critérios para tratamento.

Mas é importante perceber que perder peso não é exatamente o mesmo que perder gordura.

Uma parte do peso perdido pode corresponder a massa magra, incluindo músculo.

Por isso, durante o tratamento, não devemos olhar apenas para o número da balança.


3. Quais são os principais efeitos secundários?

Os mais frequentes são gastrointestinais:

  • náuseas;

  • vómitos;

  • diarreia;

  • obstipação;

  • dor ou desconforto abdominal;

  • sensação de enfartamento;

  • refluxo;

  • diminuição acentuada do apetite.


Também podem ocorrer desidratação e alterações da função renal, sobretudo quando existem vómitos ou diarreia importantes.


Existe ainda um aumento do risco de problemas da vesícula biliar, incluindo cálculos e colecistite. Este risco pode também estar relacionado com a própria perda de peso rápida.


Em pessoas com diabetes, particularmente quando existe retinopatia diabética, é necessário acompanhamento médico e oftalmológico adequado.


E existe outro efeito importante que muitas vezes é esquecido: comer muito menos pode significar consumir menos nutrientes.


4. E o músculo?

Este é, para mim, um dos pontos mais importantes.


Quando existe uma perda de peso significativa, podemos perder gordura e massa magra.


Por isso, não basta perguntar: “Quantos quilos perdeu?”


Devemos também perguntar: “Quanto dessa perda corresponde a gordura e quanto corresponde a massa magra?”


Uma alimentação adequada em proteína, associada a exercício, sobretudo treino de força quando clinicamente indicado, pode ajudar a preservar a massa muscular durante o processo de emagrecimento.


5. Qual é o papel da consulta de nutrição?

É aqui que considero que existe uma enorme oportunidade.


Quando o medicamento reduz o apetite, a pessoa pode passar a comer muito menos e, quando presentes, a compulsão alimentar e a fome emocional podem também diminuir. A consulta de nutrição permite garantir que essas refeições mais pequenas continuam a ser nutricionalmente completas, ajudando simultaneamente a trabalhar os comportamentos alimentares e a construir hábitos mais equilibrados e sustentáveis. O plano alimentar deve ser adaptado para:

  • garantir proteína suficiente;

  • proteger a massa muscular;

  • assegurar vitaminas e minerais;

  • prevenir défices nutricionais e anemia;

  • manter uma ingestão adequada de fibra;

  • prevenir ou melhorar a obstipação;

  • garantir hidratação;

  • adaptar o tamanho e a frequência das refeições à tolerância individual.


Comer menos não significa comer pior.

Significa que, quando a quantidade diminui, temos de prestar ainda mais atenção à qualidade nutricional da alimentação.


6. E ajudam noutras doenças?

Os benefícios destes medicamentos estão já bem estabelecidos na obesidade, excesso de peso associado a determinadas complicações e diabetes tipo 2, dependendo do medicamento.


Mas a investigação não fica por aqui. Começam a surgir resultados promissores noutras áreas, nomeadamente na artrite reumatoide, onde alguns estudos observaram reduções da atividade da doença, da dor e de marcadores inflamatórios em pessoas tratadas com agonistas do GLP-1, como o semaglutido e o tirzepatido. São resultados interessantes, mas ainda é necessária mais investigação antes de estes medicamentos poderem ser considerados tratamentos específicos para a artrite reumatoide.


Também têm surgido dados interessantes em mulheres com cancro da mama, particularmente naquelas que apresentam excesso de peso durante ou após tratamentos oncológicos e terapêutica hormonal. Estudos recentes mostram que os agonistas do GLP-1 podem contribuir para uma perda de peso clinicamente relevante neste grupo.


Na fibromialgia, existem igualmente linhas de investigação e relatos de melhorias da dor e do estado metabólico, mas a evidência ainda é mais limitada.

É, por isso, uma área em rápida evolução. Os resultados são promissores, mas não devemos confundir benefícios que estão a ser estudados com indicações terapêuticas já aprovadas.

 

7. Quando parar o tratamento vou engordar?

É possível.


Esta é uma das perguntas mais frequentes e a resposta depende de vários fatores, mas os estudos mostram que é comum recuperar uma parte do peso perdido após a suspensão do tratamento, sobretudo quando não foram consolidadas mudanças alimentares e de estilo de vida.

Isto acontece porque, depois de parar a medicação, o apetite e os mecanismos biológicos que regulam o peso podem voltar a favorecer o aumento da ingestão alimentar.


Por isso, estas medicações não devem ser encaradas como uma “cura rápida”.


O objetivo deve ser aproveitar o período de tratamento para:

  • melhorar os hábitos alimentares;

  • aprender a reconhecer fome e saciedade;

  • preservar a massa muscular;

  • melhorar a relação com a alimentação;

  • aumentar a atividade física;

  • e construir estratégias que possam ser mantidas a longo prazo.


Perder peso é importante. Conseguir mantê-lo é igualmente importante.

A decisão de reduzir ou suspender a medicação deve ser sempre feita com o médico que acompanha o tratamento, avaliando os benefícios, riscos e a estratégia de manutenção mais adequada para cada pessoa.

 

8. Afinal, o que acho das canetas emagrecedoras?

Podem ser uma ferramenta terapêutica muito útil, quando existe indicação médica.


Mas não são uma solução milagrosa nem substituem uma alimentação adequada.


O medicamento pode ajudar a controlar a fome, mas não garante que a pessoa consuma proteína suficiente, preserve o músculo ou evite défices nutricionais.


Por isso, considero fundamental uma abordagem multidisciplinar:

médico + nutricionista + atividade física + acompanhamento regular.


O objetivo não deve ser simplesmente perder peso. Deve ser perder gordura, preservar músculo, melhorar a saúde e aprender a manter os resultados a longo prazo.

 

Resumo rápido — Canetas emagrecedoras

✔ Reduzem o apetite e aumentam a saciedade.

✔ São eficazes na perda e gestão do peso em pessoas com indicação clínica.

✔ Os efeitos secundários mais frequentes são gastrointestinais.

✔ Existe risco aumentado de problemas da vesícula.

✔ Em algumas pessoas pode ocorrer perda de massa muscular.

✔ Proteína, micronutrientes, fibra e hidratação merecem especial atenção.

✔ O acompanhamento nutricional ajuda a prevenir défices e proteger a massa muscular.

✔ Não são tratamentos comprovados para todas as doenças que circulam nas redes sociais.

✔ Devem ser prescritas e acompanhadas por um médico.


As “canetas emagrecedoras” podem ser uma ferramenta importante no tratamento da obesidade. Mas a caneta pode ajudar a perder peso; quem nos ensina a alimentar o corpo durante esse processo somos nós.


Se está a utilizar uma destas medicações ou vai iniciar tratamento e pretende adaptar a sua alimentação, proteger a massa muscular e prevenir défices nutricionais, marque uma consulta de nutrição.


Alimente a sua saúde!


Um abraço com fibra,

Denise Mendes

Nutricionista 0190N


Referências

  • European Medicines Agency (EMA). Mounjaro – EPAR / Product Information.

  • European Medicines Agency (EMA). Wegovy – EPAR / Product Information.

  • He L, et al. Association of GLP-1 Receptor Agonist Use With Risk of Gallbladder and Biliary Diseases. JAMA Internal Medicine. 2022.

  • Effect of glucagon-like peptide-1 receptor agonists and co-agonists on body composition. Metabolism. 2024.

  • American Diabetes Association. Standards of Care in Diabetes.

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