Doutora, o que acha das canetas emagrecedoras?

“Mounjaro? Wegovy? Saxenda? Doutora, o que acha das canetas emagrecedoras?”
É uma das perguntas que mais se ouvem atualmente nas consultas de nutrição.
As chamadas “canetas emagrecedoras” vieram revolucionar o tratamento do excesso de peso e da obesidade, mas continuam a existir muitas dúvidas sobre como funcionam, quem pode utilizá-las, os seus efeitos secundários e o papel da alimentação durante o tratamento.
Vamos simplificar.
1. O que são as “canetas emagrecedoras”?
São medicamentos injetáveis que atuam sobre hormonas envolvidas na fome, saciedade e controlo da glicemia.
Entre os mais conhecidos encontram-se:
Semaglutido – Wegovy;
Tirzepatido – Mounjaro;
Liraglutido – Saxenda.
O Mounjaro atua sobre duas hormonas, GIP e GLP-1, enquanto o semaglutido e o liraglutido atuam sobre o GLP-1.
Na prática, estes medicamentos ajudam a:
reduzir o apetite;
aumentar a saciedade;
diminuir a quantidade de alimentos ingeridos;
melhorar o controlo da glicemia;
promover perda de peso.
São medicamentos sujeitos a prescrição médica e devem ser utilizados com acompanhamento clínico. Em Portugal, podem ser prescritos por médicos, nomeadamente de Medicina Geral e Familiar, Medicina Interna ou Endocrinologia, dependendo da situação clínica.
2. São realmente eficazes?
Sim.
Os estudos demonstram perdas de peso significativas com semaglutido e tirzepatido em pessoas com obesidade ou excesso de peso que cumprem os critérios para tratamento.
Mas é importante perceber que perder peso não é exatamente o mesmo que perder gordura.
Uma parte do peso perdido pode corresponder a massa magra, incluindo músculo.
Por isso, durante o tratamento, não devemos olhar apenas para o número da balança.
3. Quais são os principais efeitos secundários?
Os mais frequentes são gastrointestinais:
náuseas;
vómitos;
diarreia;
obstipação;
dor ou desconforto abdominal;
sensação de enfartamento;
refluxo;
diminuição acentuada do apetite.
Também podem ocorrer desidratação e alterações da função renal, sobretudo quando existem vómitos ou diarreia importantes.
Existe ainda um aumento do risco de problemas da vesícula biliar, incluindo cálculos e colecistite. Este risco pode também estar relacionado com a própria perda de peso rápida.
Em pessoas com diabetes, particularmente quando existe retinopatia diabética, é necessário acompanhamento médico e oftalmológico adequado.
E existe outro efeito importante que muitas vezes é esquecido: comer muito menos pode significar consumir menos nutrientes.
4. E o músculo?
Este é, para mim, um dos pontos mais importantes.
Quando existe uma perda de peso significativa, podemos perder gordura e massa magra.
Por isso, não basta perguntar: “Quantos quilos perdeu?”
Devemos também perguntar: “Quanto dessa perda corresponde a gordura e quanto corresponde a massa magra?”
Uma alimentação adequada em proteína, associada a exercício, sobretudo treino de força quando clinicamente indicado, pode ajudar a preservar a massa muscular durante o processo de emagrecimento.
5. Qual é o papel da consulta de nutrição?
É aqui que considero que existe uma enorme oportunidade.
Quando o medicamento reduz o apetite, a pessoa pode passar a comer muito menos e, quando presentes, a compulsão alimentar e a fome emocional podem também diminuir. A consulta de nutrição permite garantir que essas refeições mais pequenas continuam a ser nutricionalmente completas, ajudando simultaneamente a trabalhar os comportamentos alimentares e a construir hábitos mais equilibrados e sustentáveis. O plano alimentar deve ser adaptado para:
garantir proteína suficiente;
proteger a massa muscular;
assegurar vitaminas e minerais;
prevenir défices nutricionais e anemia;
manter uma ingestão adequada de fibra;
prevenir ou melhorar a obstipação;
garantir hidratação;
adaptar o tamanho e a frequência das refeições à tolerância individual.
Comer menos não significa comer pior.
Significa que, quando a quantidade diminui, temos de prestar ainda mais atenção à qualidade nutricional da alimentação.
6. E ajudam noutras doenças?
Os benefícios destes medicamentos estão já bem estabelecidos na obesidade, excesso de peso associado a determinadas complicações e diabetes tipo 2, dependendo do medicamento.
Mas a investigação não fica por aqui. Começam a surgir resultados promissores noutras áreas, nomeadamente na artrite reumatoide, onde alguns estudos observaram reduções da atividade da doença, da dor e de marcadores inflamatórios em pessoas tratadas com agonistas do GLP-1, como o semaglutido e o tirzepatido. São resultados interessantes, mas ainda é necessária mais investigação antes de estes medicamentos poderem ser considerados tratamentos específicos para a artrite reumatoide.
Também têm surgido dados interessantes em mulheres com cancro da mama, particularmente naquelas que apresentam excesso de peso durante ou após tratamentos oncológicos e terapêutica hormonal. Estudos recentes mostram que os agonistas do GLP-1 podem contribuir para uma perda de peso clinicamente relevante neste grupo.
Na fibromialgia, existem igualmente linhas de investigação e relatos de melhorias da dor e do estado metabólico, mas a evidência ainda é mais limitada.
É, por isso, uma área em rápida evolução. Os resultados são promissores, mas não devemos confundir benefícios que estão a ser estudados com indicações terapêuticas já aprovadas.
7. Quando parar o tratamento vou engordar?
É possível.
Esta é uma das perguntas mais frequentes e a resposta depende de vários fatores, mas os estudos mostram que é comum recuperar uma parte do peso perdido após a suspensão do tratamento, sobretudo quando não foram consolidadas mudanças alimentares e de estilo de vida.
Isto acontece porque, depois de parar a medicação, o apetite e os mecanismos biológicos que regulam o peso podem voltar a favorecer o aumento da ingestão alimentar.
Por isso, estas medicações não devem ser encaradas como uma “cura rápida”.
O objetivo deve ser aproveitar o período de tratamento para:
melhorar os hábitos alimentares;
aprender a reconhecer fome e saciedade;
preservar a massa muscular;
melhorar a relação com a alimentação;
aumentar a atividade física;
e construir estratégias que possam ser mantidas a longo prazo.
Perder peso é importante. Conseguir mantê-lo é igualmente importante.
A decisão de reduzir ou suspender a medicação deve ser sempre feita com o médico que acompanha o tratamento, avaliando os benefícios, riscos e a estratégia de manutenção mais adequada para cada pessoa.
8. Afinal, o que acho das canetas emagrecedoras?
Podem ser uma ferramenta terapêutica muito útil, quando existe indicação médica.
Mas não são uma solução milagrosa nem substituem uma alimentação adequada.
O medicamento pode ajudar a controlar a fome, mas não garante que a pessoa consuma proteína suficiente, preserve o músculo ou evite défices nutricionais.
Por isso, considero fundamental uma abordagem multidisciplinar:
médico + nutricionista + atividade física + acompanhamento regular.
O objetivo não deve ser simplesmente perder peso. Deve ser perder gordura, preservar músculo, melhorar a saúde e aprender a manter os resultados a longo prazo.
Resumo rápido — Canetas emagrecedoras
✔ Reduzem o apetite e aumentam a saciedade.
✔ São eficazes na perda e gestão do peso em pessoas com indicação clínica.
✔ Os efeitos secundários mais frequentes são gastrointestinais.
✔ Existe risco aumentado de problemas da vesícula.
✔ Em algumas pessoas pode ocorrer perda de massa muscular.
✔ Proteína, micronutrientes, fibra e hidratação merecem especial atenção.
✔ O acompanhamento nutricional ajuda a prevenir défices e proteger a massa muscular.
✔ Não são tratamentos comprovados para todas as doenças que circulam nas redes sociais.
✔ Devem ser prescritas e acompanhadas por um médico.
As “canetas emagrecedoras” podem ser uma ferramenta importante no tratamento da obesidade. Mas a caneta pode ajudar a perder peso; quem nos ensina a alimentar o corpo durante esse processo somos nós.
Se está a utilizar uma destas medicações ou vai iniciar tratamento e pretende adaptar a sua alimentação, proteger a massa muscular e prevenir défices nutricionais, marque uma consulta de nutrição.
Alimente a sua saúde!
Um abraço com fibra,
Denise Mendes
Nutricionista 0190N
Referências
European Medicines Agency (EMA). Mounjaro – EPAR / Product Information.
European Medicines Agency (EMA). Wegovy – EPAR / Product Information.
He L, et al. Association of GLP-1 Receptor Agonist Use With Risk of Gallbladder and Biliary Diseases. JAMA Internal Medicine. 2022.
Effect of glucagon-like peptide-1 receptor agonists and co-agonists on body composition. Metabolism. 2024.
American Diabetes Association. Standards of Care in Diabetes.




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